O
avanço da reforma agrária é uma condição
indispensável para o desenvolvimento sustentável
do País, e requer acesso à terra, ao conhecimento
e ao crédito. A afirmação é do
presidente do Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, que participou
da abertura do seminário “Aspectos Jurídicos
da Reforma Agrária”, no dia 13 de dezembro, no
Palácio do Itamaraty, em Brasília. A conferência
inaugural foi proferida pelo ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), Eros Grau, que falou sobre os aspectos jurídicos
da reforma agrária.
O
presidente do Incra explicou que a ampliação
da reforma agrária pode beneficiar a produção
e garantir também a paz no campo. “Quanto mais
andar a reforma agrária e o desenvolvimento rural sustentável,
com aplicação do direito agrário, maior
justiça, mais paz e mais produção nós
teremos no País”, destacou Hackbart.
Segundo
Eros Grau, a função social é intrínseca
à propriedade rural. “Ainda não está
sedimentada a idéia fundamental de que não é
que a propriedade seja dotada de função social,
mas que a função social já é um
elemento da própria conceituação da propriedade”,
disse.
Grau apontou que há uma contradição na
legislação brasileira quando permite a indenização
por propriedades que não cumprem sua função
social. “Só poderia estar garantida pelo direito
a propriedade que cumprisse sua função social
mas, mesmo assim, são indenizados os donos de terras
desapropriadas por não cumprirem esse preceito”,
observa.
Para
o consultor jurídico do MDA, Carlos Henrique Kaipper,
o direito agrário não deve ser uma ferramenta
de manutenção do latifúndio improdutivo.
"O direito agrário tem que ser um instrumento
dessa luta, tem que ser um instrumento de distribuição
de terra e renda e de combate ao latifúndio improdutivo",
defende.
Destaques
O
evento é uma iniciativa do Ministério do Desenvolvimento
Agrário (MDA), por meio do Núcleo de Estudos
Agrários e Desenvolvimento Rural (NEAD), da Consultoria
Jurídica (Conjur) e do Incra, em parceria com a Associação
Brasileira de Direito Agrário (ABDA). De acordo com
a presidente da ABDA, Maria Célia dos Reis, as conclusões
obtidas pelos debatedores durante o seminário serão
reunidas em um relatório, que será encaminhado
às instituições promotoras do evento,
com vistas à divulgação mais ampla em
formato apropriado para o público interessado no tema.
A
questão ambiental ganhou espaço importante nas
discussões. O coordenador-geral das Promotorias de
Justiça de Defesa do Meio Ambiente da Bacia do Rio
São Francisco, da Procuradoria Geral de Justiça
e Ministério Público de Minas Gerais, Alex Santiago,
apresentou o tema “Reserva Legal”. Ele alertou
para o descumprimento das leis em relação à
temática e ressaltou as características de uma
reserva legal – reserva localizada no interior de uma
propriedade rural -, que deve ser um espaço de conservação
da biodiversidade e uso sustentável da fauna e dos
recursos naturais. “a fiscalização sobre
as reservas legais deve ser intensificada. Se todos os espaços
fossem respeitados, teríamos um reflorestamento enorme”,
afirmou. O procurador-geral do Ibama, Sebastião Azevedo,
falou sobre estudos realizados para ocorrer a licença
ambiental - dispositivo que serve para evitar empreendimentos
e atividades potencialmente poluidores – e as fases
para se obter o licenciamento.
Marco
Aurélio Pavarino, coordenador técnico do Núcleo
de Meio Ambiente e Recursos Naturais do Incra, discutiu o
custo da recomposição e a desapropriação
de áreas degradadas. “O custo de recuperação
de uma área degradada é muito alto. Devemos
discutir como será descontado da indenização
ao proprietário, nos imóveis rurais desapropriados,
o custo de recuperação das áreas degradadas”,
exemplifica.
As
discussões do Seminário foram até o dia
14 de dezembro, com a participação de representantes
da Advocacia Geral da União (AGU), Procuradoria da
República, do Incra, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), procuradores
e juízes de vários estados brasileiros, além
de advogados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), advogados da Confederação Nacional de
Trabalhadores na Agricultura (Contag), professores de Direito
Agrário, promotores e ouvidores agrários.
Dentre
os assuntos discutidos no evento, outros destaques foram a
função social da propriedade, aspectos da desapropriação
de terras, regularização fundiária, conflitos
de posse, juros compensatórios, grilagem, defesa criminal
dos Sem Terra. O Seminário faz parte da parceria entre
NEAD, Consultoria Jurídica do MDA (Conjur), Incra e
ABDA que ainda prevê um concurso nacional voltado à
comunidade acadêmica, para o estímulo da produção
do conhecimento sobre as temáticas do Direito Agrário,
e a reedição da Revista de Direito Agrário,
publicação do MDA/Incra que divulga estudos
e documentos relativos ao tema.
Com
informações da Ascom/MDA