O Desarmamento no Meio
Rural
Augusto Ribeiro Garcia*
Revista DBO Outubro/2005
No próximo dia 23 será realizado
o plebiscito nacional para referendar ou rejeitar a comercialização
de armas e munições em todo o território
brasileiro. Esse tema é da mais alta relevância para
a sociedade brasileira. Principalmente levando-se em conta o momento
histórico em que o País vive.
O crime organizado tem atingido limites inimagináveis,
a ponto de desafiar o próprio poder constituído,
acintosamente. Embora seja um fenômeno mundial, em algumas
regiões brasileiras ele já age como um poder paralelo
ao Estado. Esse é o caso, por exemplo, do Rio de Janeiro,
onde até políticos têm que pedir permissão
aos traficantes para subir os morros e adentrar às favelas
cariocas.
Nos grandes centros urbanos as quadrilhas e as
facções criminosas vivem em estado de guerra. Seus
comandos agem até mesmo de dentro das penitenciárias.
Isso obriga a que as pessoas de bem vivam trancafiadas atrás
das grades ou em apartamentos. Nem os condomínios de luxo,
com dispositivos de segurança sofistica, estão imunes
à ação da bandidagem.
Já no meio rural, onde até anos
atrás vivia-se o bucolismo e a tranqüilidade, agora
também tornou-se isca fácil das quadrilhas organizadas.
O roubo de gado já é uma constante nas invernadas.
Até as sedes das fazendas já não vivem mais
em paz. Isso está obrigando a que os fazendeiros se organizem
para se defenderem, montando uma guarda particular.
Num país civilizado, onde as regras do
bom convívio fossem observadas, nada disso seria necessário.
Principalmente se o direito de propriedade fosse respeitado. Aí,
sim, não seria admissível as pessoas de bem se armarem.
Mesmo quando, no Brasil, ainda reinava o império
da lei e o respeito ao direito de propriedade, o meio rural tinha
um tratamento especial em relação à segurança.
Um exemplo disso é o artigo 24 Código Florestal
(Lei nº 4.771/65). Esse dispositivo legal diz textualmente
o seguinte: “Os funcionários florestais, no exercício
de suas funções, são equiparados aos agentes
de segurança pública, sendo-lhes assegurado o porte
de armas”
Em muitos aspectos, o meio rural constitui um
universo totalmente diferente do meio urbano. Em termos de segurança,
os moradores da zona rural vivem praticamente sem nenhuma proteção
dos órgãos competentes. As propriedades localizadas
nas regiões longínquas e desprovidas de telefone
são as mais vulneráveis. Sem comunicação,
seus habitantes são presas fáceis de qualquer ação
de criminosos. Até que se chegue ao conhecimento da autoridade
policial qualquer fato criminoso, a vítima já sofreu
conseqüências irreparáveis.
É por questões desta natureza que
se justifica a permissão do porte de armas de fogo pelos
funcionários florestais, que são equiparados aos
agentes de segurança pública. Lá nos rincões
distantes deste País de dimensões continentais,
sem a presença da segurança pública do Estado,
é plenamente justificável que o cidadão tenha
em casa uma arma para a sua defesa pessoal e de sua família.
Mesmo quando ele esteja em trabalho, embrenhado pelas matas, é
mais do que necessário portar uma arma para se defender
de um eventual ataque de animais ferozes.
A atual campanha de desarmamento do governo parte
do pressuposto de que estamos vivendo num país infinitamente
pacífico. A violência urbana, nessa ótica,
é fruto das armas que circulam nas mãos das pessoas
de bem. Está pensando que nos fundões do Brasil
rural só vivem os inofensivos trabalhadores de mãos
calejadas. Lá não chegam os bandidos urbanos, nem
mesmo que estejam travestidos de militantes de algum movimento
social. Pura ingenuidade.
Se essa investida desarmamentista, realmente,
desarmasse também os traficantes e os bandidos comuns e
acabasse com o contrabando de armas, seria uma tarefa louvável.
Enquanto essa utopia é alimentada pelo governo, as pessoas
correm o sério risco de ficarem desarmadas e de se passarem
por otárias.
Diante desse quadro dramático, e polêmico,
é bom refletir bastante antes de votar. Principalmente
as pessoas de bem desse imenso País e dos longínquos
e sofridos rincões brasileiros.
Investida ambientalista
Quem é mais importante? Um boi, uma árvore
ou um homem? Esta é basicamente a linha de raciocínio
da Lei estadual nº 11.977, que instituiu o Código
de Proteção aos Animais do Estado de São
Paulo. Embora ainda não regulamentada, essa lei está
causando a maior polêmica no mundo do agronegócio.
Se não for revogada ou modificada, ela pode representar
um abalo para a economia do Estado de São Paulo e um sério
precedente para a legislação brasileira.
Só o fato de ela impor restrições
ao confinamento de rebanhos bovinos, de avestruzes e à
avicultura em geral, é retrocesso na atividade produtiva.
Ela é fruto do movimento ambientalista radical, que chega
às raias do conservadorismo. Ainda bem que é circunscrita
ao Estado. Por enquanto. Isto porque existe um forte movimento
nesse sentido espalhado por todo o Brasil. E não apenas
nos meios políticos, mas também no meio acadêmico.
Fica aqui a interrogação inicial: quem é
mais importante? o boi, a árvore ou homem?
*Augusto Ribeiro Garcia é jornalista e
advogado agroambientalista
E-mail: argarcia@plugnet.com.br